Castelo de Cartas da Ciência – Tectônica de placas.

por Newton M. Campos Jr.

Se ao menos eu soubesse – pensou consigo mesma – qual é o pescoço e qual é a cintura?

            Alice, no País das Maravilhas.

 

Em 2014 o Brasil conquistou o direito de pesquisa, para fins de exploração comercial, da região denominada Elevação do Rio Grande, uma região granítica (crosta continental) a 1.500 km da costa sudeste. Além das crostas ricas em cobalto, as pesquisas também constataram a ocorrência de outros minérios, como níquel, platina, manganês e terras raras.

Uma das possibilidades aventadas[1] é que se trate de um remanescente de crosta continental, deixado para trás (sic) durante o processo de separação entre a América do Sul e a África. Essa possibilidade seria “compatível” com a teoria vigente – Placas Tectônicas – para a origem dos continentes e oceanos. Mas os continentes não se movimentam pelo espalhamento basáltico oceânico?

Um dos esteios da tectônica de placas é o espalhamento basáltico oceânico, a partir das cadeias mesoceânicas. Sendo o presente a chave do passado, precisamos considerar a existência no presente do microcontinente Mauritia[2], de constituição silicática, no caminho desta pretensa deriva da Índia. Estudos geocronológicos observaram ali zircões do Palaeoproterozoico (1.971 milhões de anos) ou do Neoproterozoico (de 660 a 840 Ma). A equipe da Universidade de Oslo também identificou recentemente um microcontinente (350 x 70 km) sob o basalto da Islândia.[3]

A inviabilidade de espalhamento oceânico a partir das dorsais é advogada[4] pela existência das ilhas silicáticas, como Madagascar, Ceilão, Japão, Filipinas, Cuba e Seychelles. Considerando a reciclagem do assoalho oceânico, com uma subducção de até 4 km3/ano, estima-se que, ao longo dos últimos 150 milhões de anos, uma tira de fundo do oceano de 8.000 km de comprimento teria desaparecido sob os Andes, o Pacífico Norte teria diminuído em 13.000 km, e no Mediterrâneo teriam sido engolidos 1.000 km da placa africana.[5]

Em publicação de 2017, culminando mais de dez anos de estudos, pesquisadores argumentam que Nova Zelândia e Nova Caledônia não são meramente uma cadeia de ilhas, mas parte de uma única placa – a Zealandia – de 4,9 milhões de km2 de crosta continental (do tamanho da península indiana), crosta esta distinta da Austrália.[6]

A teoria da tectônica de placas não tem conseguido explicar a presença destas crostas graníticas – continentes – sob os oceanos.

Ao final da 2ª grande guerra, os norte-americanos, desenvolviam técnicas para identificação de submarinos, baseados na confrontação destes com os padrões magnéticos do fundo oceânico. Tais estudos foram retomados por volta de 1955, com os auspícios da guarda costeira norte-americana. A iminência de submarinos soviéticos carregando ogivas atômicas liberou grandes verbas para o mapeamento do fundo oceânico, e permitiu o grupamento dos melhores estudantes de geociências de então, sob a orientação de um ex-comandante de submarinos. A partir da constatação de um padrão paleomagnético zebrado de fundo oceânico, e com bases na teoria da Deriva Continental[7], surgiu a teoria da Tectônica de Placas.

A teoria da deriva continental já havia sido mais que inviabilizada matemática e fisicamente[8], mas contra a força – neste caso, o volumoso dinheiro investido na pesquisa de finalidades bélicas – não há argumentos. Para explicar a teoria de que o padrão paleomagnético era advindo de um espalhamento oceânico, os pesquisadores imaginaram as placas crustais e buscaram pelos limites destas. Alguns destes limites – falhas geológicas – nunca foram encontrados. Ou seja, mais que confirmamos que alguns dos limites de placas não existem; e se estes limites não existem estas placas também não existem. Ainda assim, os pontilhados dos limites inexistentes nos mapas tectônicos originais, foram substituídos por linha contínuas nos mapas modernos. E o milagre se fez.

A parte emersa do arquipélago havaiano é considerada como o rastro de um hot spot, com o centro vulcânico ativo atual sob a Grande Ilha do Havaí, propriamente dita. As ilhas vão ficando mais velhas em direção ao nordeste, sugerindo que a placa oceânica do Pacífico supostamente tenha se movido nesta direção sobre o ponto quente fixado.[9]

Entretanto, a geocronologia das ilhas da cadeia de Samoa, ao sul, na mesma placa do Pacífico, mostra um movimento inverso: a ilha mais nova, ainda vulcanicamente ativa, Savai’i, é a ilha mais a oeste do arquipélago.

Ante esta ambiguidade, precisamos considerar o referencial inverso, ou seja, que a crosta esteja parada e sejam os hot spots os que mudam de posição, como bolhas ejetadas do núcleo em rotação, consecutivamente.

A palavra grega Katastrophe significa um acontecimento que termina em desastre. No antigo drama teatral grego, era o momento em que os acontecimentos se voltavam ao personagem principal. Ao buscar se afastar das catástrofes anunciadas pelas religiões, os geólogos se abrigaram na afirmação de que “o presente é a chave para o passado”[10], e tentaram explicar os processos geológicos dentro do princípio de que a Terra ainda age como sempre agiu. É como na teoria da evolução[11], na qual as mudanças biológicas ocorreriam natural e gradualmente.

Hoje a evolução tem sido aceita sob uma visão de equilíbrio pontuado[12]. Pela Teoria do Equilíbrio Pontuado, a evolução das espécies não se dá de forma constante, mas alternando longos períodos de poucas mudanças com rápidos saltos transformativos. De modo correlacionado, os saltos biológicos são acompanhados de catastróficos saltos geológicos. Como pensar em terremotos, cordilheiras, vulcões, sem pensar em catástrofes?

Que razões levaram os geocientistas a aceitar a teoria da tectônica de placas como algo revolucionário que unificou suas ciências? Bem, ela é fácil de ensinar. E, ainda, possui baixo impacto no trabalho destes geocientistas. Quando a teoria surgiu, um reino de terror se seguiu; os que não aceitaram a tectônica de placas foram ridicularizados ou considerados ultrapassados[13]. O mesmo se passa atualmente quanto à camada de ozônio, ou quanto ao aquecimento global.

Fatos e teorias não são opostos, mas interdependentes. Os fatos são a base empírica das teorias – podem corroborá-las ou refutá-las. Uma teoria deve ordenar os fatos de forma a promover explicações que possibilitem previsões (explicar é poder prever). A teoria da tectônica de placas não tem conseguido prever os terremotos.

Extrapolar eventuais movimentos crustais atuais para centenas de milhões de anos no passado ou no futuro é um exercício claramente perigoso. De fato, levantamentos geodésicos ao longo dos rifts (por exemplo, na Islândia e no Leste Africano) não conseguiram detectar qualquer dilatação ou espalhamento consistente e sistemático como postulado pela tectônica de placas[14]. A tectônica de placas pode ser considerada como um dos mais fantásticos castelos de cartas erigidos na ciência.

 

[1] MOHRIAK et al. Geological and geophysical interpretation of the Rio Grande Rise, south-eastern Brazilian margin: extensional tectonics and rifting of continental and oceanic crusts. Petroleum Geoscience, Vol. 16, p. 231-245. 2010.

[2] TORSVIK, et al. (Trond H. Torsvik; Hans Amundsen; Ebbe H. Hartz; Fernando Corfu; Nick Kusznir; Carmen Gaina; Pavel V. Doubrovine; Bernhard Steinberger; Lewis D. Ashwal & Bjørn Jamtveit.). A Precambrian microcontinent in the Indian Ocean. Nature Geoscience 6, 223–227 (2013) doi:10.1038/ngeo1736.

[3] TORSVIK et al. (Trond H. Torsvik, Hans E. F. Amundsen, Reidar G. Trønnes, Pavel V. Doubrovine, Carmen Gaina, Nick J. Kusznir, Bernhard Steinberger, Fernando Corfu, Lewis D. Ashwal, William L. Griffin, Stephanie C. Werner, Bjørn Jamtveit.). Continental crust beneath southeast Iceland. Proceedings of the National Academy of Sciences, 2015; 201423099 doi:10.1073/pnas.1423099112.

[4] ASHWAL, D.; D. DEMAIFFE and T. H. TORSVIK. Petrogenesis of Neoproterozoic Granitoids and Related Rocks from the Seychelles: the Case for an Andean-type Arc Origin. J. Petrology (2002) 43 (1): 45-83. doi: 10.1093/petrology/43.1.45.

[5] VAN ANDEL, Tjeerd H. New Views on an Old Planet – A history of global change. Cambridge, UK: Cambridge Editora, 1995.

[6] MORTIMER, Nick; Hamish J. CAMPBELL; Andy J. TULLOCH; Peter R. KING, Vaughan M. STAGPOOLE; Ray A. WOOD; Mark S. RATTENBUTY; Rupert SUTHERLAND; Chris J. ADAMS; Julien COLLOT; Maria SETON. Zealandia: Earth’s Hidden Continent. GSA Today, Volume 27 Issue 3 (March/April 2017).

[7] WEGENER, Alfred Lothar. El Origen de los Continentes y Océanos. Barcelona: Crítica, 2009.

[8] JEFFREYS, Harold. Sir. The Earth – Its origin, history and physical constitution. Cambridge, UK: Oxford University, 1924, 1970, 1976.

[9] SCHEIDEGGER, Adrian E. Morphotectonics. Viena: Springer, 2004. (p.98-103).

[10] HUTTON, James. The Theory of the Earth, 1788, apud WINCHESTER, Simon. O Mapa que Mudou o Mundo – William Smith e o nascimento da geologia moderna. R. Janeiro: Record, 2004, cap.5.

[11] DARWIN, Charles R. Origem das Espécies. B. Horizonte; Itatiaia, 2000.

[12] ELDREDGE, Niles. The Pattern of Evolution. W.H. Freeman, 1999.

[13] ORESKES, Naomi (ed.). Plate Tectonics, an insider’s history of the modern theory of the Earth. Boulder – Colorado: Westview Press, 2003. (p.324).

[14] KEITH, MacKenzie L. Evidence for a plate tectonics debate. Pennsylvania: Elsevier, 2001. In: Earth-Science Reviews, 55, p.235-336.

 

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