O modelo de progresso científico de Thomas Kuhn e suas repercussões.

Por: Dra Daniela de Souza Onça

1. O modelo de progresso científico de Thomas Kuhn.

Alguns dos conceitos comumente empregados quando se fala em mudança científica, como revolução científica, mudança de paradigma e incomensurabilidade, foram consagrados por Thomas Kuhn, físico e filósofo norte-americano, na década de 1960. Sua obra mais importante, A estrutura das revoluções científicas, publicada pela primeira vez em 1962, provocou fortes impactos sobre a comunidade científica de então – e continua a provocá-los, embora com intensidade atenuada –, oferecendo uma alternativa ao modelo de progresso científico de Popper, positivista e realista convergente. Em matéria de progresso científico, Kuhn parece ser uma referência obrigatória – infelizmente, para muitos, é a única espécie de referência. Convém relatá-lo para situarmos os pontos necessários à nossa discussão.

A obra de Kuhn apresenta duas características notáveis: a primeira é a ênfase sobre o caráter revolucionário do progresso científico, em que as revoluções científicas se processam através do abandono de uma estrutura teórica em favor de outra, incompatível com aquela; a segunda é a ênfase sobre o papel desempenhado pelos elementos sociológicos das comunidades científicas.

Para iniciar, forneceremos a definição de Kuhn para o conceito central de sua obra: o paradigma.

“[Paradigmas são realizações] suficientemente sem precedentes para atrair um grupo duradouro de partidários, afastando-os de outras formas de atividade científica dissimilares [e] suficientemente abertas para deixar toda a espécie de problemas para serem resolvidos pelo grupo redefinido de praticantes da ciência”.

Diante da imprecisão desta definição de paradigma, citamos as acepções deste conceito fornecidas por Laudan: um paradigma oferece um quadro geral para a classificação e explicação dos objetos naturais, ou seja, postula determinadas idéias sobre como é o mundo e especifica os métodos, técnicas e instrumentos de pesquisa
para o estudo dos objetos no domínio de aplicação relevante.

Um paradigma bem delimitado e consolidado conduz o que Kuhn chama de ciência normal, ou seja, a atividade científica cotidiana de solucionar problemas, sugerir hipóteses e assim por diante, com vistas a aumentar o alcance e a precisão da aplicação do paradigma. Esta fase do desenvolvimento científico mostra-se altamente cumulativa, correspondendo bem à imagem habitual do processo científico. Por esse caráter cumulativo e de simples melhoria da articulação do paradigma, uma característica marcante da ciência normal é seu reduzido interesse em produzir grandes novidades, tanto no campo dos conceitos como no dos fenômenos. O que atrairá o cientista para as atividades da ciência normal não será, então, propriamente o resultado a ser obtido – isso o paradigma, de certa forma, fornece antecipadamente –, mas o método para alcançá-lo. Por isso Kuhn compara a ciência normal à montagem de um quebra-cabeça: geralmente sabemos qual a figura a ser formada, e nem por isso nossa motivação se esvai; o envolvente da atividade está em descobrir novos métodos de resolução, mais rápidos ou mais eficazes. Nas palavras de Kuhn, “Resolver um problema da pesquisa normal é alcançar o antecipado de uma nova maneira”.

Enquanto os paradigmas permanecerem seguros, sem contestações, podem funcionar sem a necessidade de algum acordo sobre as razões de seu emprego ou qualquer tentativa de racionalização. Eventualmente, porém, fenômenos novos e insuspeitados serão descobertos, o que não será imediatamente encarado como uma falsificação do paradigma, mas apenas como uma falha do cientista ou, no máximo, como uma anomalia; os paradigmas podem enfrentar períodos de dificuldades, sem que isso chegue a configurar uma crise. Se qualquer fracasso na tentativa de adaptação dos dados à teoria fosse motivo de rejeição, todas as teorias deveriam ser sempre rejeitadas.

Por vezes as anomalias podem nem mesmo ser percebidas, devido ao fato de nossas mentes estarem “programadas” para o que devem “enxergar”. Kuhn, para demonstrar a existência dessa percepção programada, cita a famosa experiência das cartas anômalas de Bruner e Postman. Os dois cientistas pediram a um grupo de pessoas que identificassem cartas de baralho expostas em seqüência durante curtos períodos. A maioria das cartas era normal, mas algumas haviam sido adulteradas, como por exemplo um seis de espadas vermelho ou um quatro de copas preto. Quando tais cartas eram exibidas em meio às cartas normais, eram quase sempre identificadas como cartas normais sem qualquer hesitação ou perplexidade por parte das pessoas: o quatro de copas preto era imediatamente identificado como um quatro de espadas ou de copas comum. Somente após um aumento no número e no tempo de exposição das cartas anômalas as pessoas começavam a expressar certo desconforto e a perceber que havia algo de errado com esse baralho, até conseguirem, passado algum tempo, identificar com razoável facilidade as cartas anômalas. Kuhn também fornece, mais adiante, um exemplo real da importância da visão de mundo dominante na determinação dos rumos tomados pela ciência: ao tempo de Copérnico, quando os céus eram considerados imutáveis, não se percebiam neles fenômenos novos. Já a civilização chinesa, cujas crenças cosmológicas não excluíam mudanças celestes, foi capaz de registrar o aparecimento de muitas novas estrelas no céu numa época muito anterior, bem como, mesmo sem o auxílio de telescópios, registrar de maneira sistemática o aparecimento das manchas solares séculos antes de serem observadas por Galileu e seus contemporâneos.

Esta experiência de Bruner e Postman fornece uma bela metáfora para descrever o processo das mudanças científicas. De início, experimentamos somente o que é habitual e esperado, mesmo em circunstâncias a serem reconhecidas mais tarde como anomalias. À medida que tomamos maior familiaridade com essas anomalias, podemos perceber então que algo não está saindo como o previsto. Inicia-se um período de acentuada insegurança profissional, disputas metafísicas e epistemológicas, expressões de descontentamento e tentativas de defesa radicais. Chegará um momento em que as anomalias serão muito numerosas ou muito graves, questionando os fundamentos do paradigma, inibindo aplicações práticas de especial importância ou mesmo ganhando maiores proporções. Quando, por alguma dessas razões ou outras, uma anomalia parece ser algo mais do que um novo quebra-cabeça da ciência normal, é sinal de que o paradigma está irremediavelmente enfraquecido e está iniciada a transição para a crise.

As crises adquirem especial importância no modelo de mudança científica de Kuhn, pois só elas são capazes de elucidar os pontos de falhas de um paradigma. Enquanto um paradigma mantiver sua capacidade de resolução de problemas, não haverá razão para modificá-lo; mesmo que surja uma teoria alternativa, ela só produzirá uma mudança de paradigma no momento da ocorrência de uma crise. Caso contrário, será esquecida, pois aparentemente não há problemas por ela resolvidos que já não o sejam pelo paradigma estabelecido. Kuhn cita como exemplo da importância do advento das crises o episódio relacionado ao grego Aristarco, que já no século III a.C. propunha o sistema heliocêntrico. Afirma-se freqüentemente que, se a ciência grega tivesse sido menos dedutiva e dogmática, o heliocentrismo poderia ter florescido dezoito séculos antes. Ora, fazer tal afirmação equivale a ignorar todo o contexto histórico, pois quando a sugestão de Aristarco foi feita o sistema geocêntrico ainda não apresentava qualquer problema que pudesse ser mais bem solucionado pelo sistema heliocêntrico.

As crises poderão terminar de três maneiras: através do tratamento satisfatório do problema pelo paradigma tradicional, através da desistência da resolução até surgirem teorias e métodos capazes de solucioná-lo ou, o caso que mais nos interessa, através da emergência de um paradigma rival, uma alternativa viável que de alguma forma demonstre sua superioridade em relação ao anterior. É nesse momento que se processam as revoluções científicas, episódios de desenvolvimento em que um paradigma mais antigo é total ou parcialmente substituído por um novo, incompatível com o anterior. Este processo, contrastando com a fase de ciência normal, está longe de ser cumulativo, configurando-se como uma verdadeira ruptura com os padrões anteriores:

“é antes uma reconstrução da área de estudos a partir de novos princípios, reconstrução que altera algumas das generalizações teóricas mais elementares do paradigma, bem como muitos de seus métodos e aplicações (…). Completada a transição, os cientistas terão modificado a sua concepção da área de estudos, de seus métodos e de seus objetivos”.

Muitos leitores certamente replicarão afirmando que o que muda na revolução científica é apenas a interpretação dos fatos, do que Kuhn discorda. Quando muda nossa interpretação dos fatos, mudam também os dados coletados, a construção das teorias e os métodos de investigação, totalmente transformados em muitos de seus detalhes.

O novo paradigma, para ser aceito, deverá ser mais bem-sucedido do que seus competidores na resolução de problemas que um grupo de cientistas considere graves ou importantes, mas não precisará explicar todos os fatos com os quais é confrontado nem ser totalmente bem-sucedido na resolução de um único problema ou notavelmente bem-sucedido com um grande número deles. Alguns problemas serão mais bem resolvidos, outros menos, sem que esses pontos de perda sejam considerados elementos de retrocesso e não de avanço no conhecimento científico; tudo dependerá das prioridades que a comunidade científica tiver no momento da revolução. Note-se aqui a importância atribuída por Kuhn à interferência de fatores sociológicos em todas as fases do desenvolvimento científico, mas principalmente durante as revoluções. Essa importância fica ainda mais nítida diante das afirmações de Kuhn de que quase sempre as mudanças de paradigma são conduzidas por cientistas jovens, em virtude de seu pouco comprometimento com o paradigma antigo, conseqüência de sua prática científica ainda limitada.

Paradigmas diferentes ensinam coisas diferentes sobre o mundo e exigem com freqüência uma total redefinição das teorias, métodos e objetivos da ciência correspondente. Como conseqüência, a ciência normal que emerge de uma revolução científica não será simplesmente intraduzível ou incompatível, mas verdadeiramente incomensurável com sua precedente. Incomensurabilidade é outro conceito central da obra de Kuhn: de acordo com este conceito, não será possível a comunicação inteligível entre proponentes de paradigmas rivais, posto que cada um deles explicitará uma visão de mundo diferenciada:

“quando duas escolas científicas discordam sobre o que é um problema e o que é uma solução, elas inevitavelmente travarão um diálogo de surdos ao debaterem os méritos relativos aos respectivos paradigmas. Nos argumentos parcialmente circulares que habitualmente resultam desses debates, cada paradigma revelar-se-á capaz de satisfazer mais ou menos os critérios que dita para si mesmo e incapaz de satisfazer alguns daqueles ditados por seu oponente”.

Em trabalho posterior, Kuhn inclui um conceito que clarifica a relação entre as revoluções científicas e a incomensurabilidade: é a especialização. Após uma revolução, normalmente emergem novas especialidades científicas, seja por separação de um ramo, seja por unificação de ramos antes separados, que pouco a pouco vão produzindo seus próprios periódicos, suas próprias sociedades profissionais, seus próprios laboratórios e finalmente seus próprios departamentos. Terão novos objetos de estudo, conceitos, instrumentos, métodos e linguagens, configurando-se aí a incomensurabilidade dos novos campos do saber.

O ponto mais relevante do modelo de progresso científico de Kuhn em nossa análise está na concepção dos paradigmas como um bloco indissociável de teorias, métodos e objetivos, de maneira que um componente não pode mudar sem arrastar consigo a mudança em outro:

“Precisamente por tratar-se de uma transição entre incomensuráveis, a transição entre paradigmas em competição não pode ser feita passo a passo, por imposição da Lógica e de experiências neutras. Tal como a mudança da forma (Gestalt) visual, a transição deve ocorrer subitamente (embora não necessariamente num instante) ou então não acontece jamais”.

Kuhn afirma que, em decorrência da questão da incomensurabilidade, não existe um critério inequívoco para a escolha de um paradigma: ela não pode ser decidida de maneira puramente objetiva e racional, como, por exemplo, contar o número de problemas resolvidos por cada um deles. De uma forma ou de outra, sempre poderão ser identificados ingredientes formadores das crenças das comunidades científicas de origem um tanto arbitrária, compostos de acidentes pessoais e históricos – cursos freqüentados, textos lidos, periódicos estudados, inspirações surgidas no meio da noite, técnicas de argumentação persuasiva das comunidades atingidas, fatos ocorridos durante a vida de um cientista, características de sua personalidade, nacionalidade ou a reputação prévia do inovador e seus mestres serão capazes de desempenhar um papel significativo na escolha teórica de um cientista ou de uma comunidade científica. Um exemplo citado por Kuhn é a adoração do Sol que ajudou a fazer de Kepler um copernicano.

“Em suma: se um novo candidato a paradigma tivesse que ser julgado desde o início por pessoas práticas, que examinassem tão-somente sua habilidade relativa para resolver problemas, as ciências experimentariam muito poucas revoluções de importância. Junte-se a isso os contra-argumentos gerados por aquilo que acima chamamos de incomensurabilidade dos paradigmas e as ciências poderiam não experimentar revoluções de espécie alguma”.

Por conta da inexistência de critérios perfeitamente racionais e da inegável atuação de fatores irracionais, a transição entre paradigmas é comparada, por Kuhn, a uma “experiência de conversão” – sim, no sentido religioso do termo. A mudança de paradigma é concebida por Kuhn como uma verdadeira mudança na concepção de mundo: “Aquilo que antes da revolução aparece como um pato no mundo do cientista transforma-se posteriormente num coelho”. Os cientistas, nessas ocasiões, falam freqüentemente em uma venda que cai dos olhos ou em uma iluminação repentina que inunda um quebra-cabeça antes obscuro, permitindo que suas peças sejam vistas de uma nova maneira e abrindo, finalmente, possibilidades para uma solução.

Não é difícil aceitar essa idéia se considerarmos que boa parte de nosso aprendizado científico se dá realmente dessa forma, fazendo-nos efetivamente enxergar o mundo de outra maneira: o leigo, ao observar uma carta topográfica, vê apenas linhas curvas desenhadas sobre um papel, enquanto o geógrafo consegue visualizar as formas de relevo representadas. O senso comum nos dirá que nossa percepção é determinada principalmente pelo meio ambiente, mas talvez a tradição científica onde estejamos imersos seja tão ou mais importante que o dado direto no nosso processo de aprendizado, de formação de conceitos. Nas palavras de Kuhn, “o que um homem vê depende tanto daquilo que ele olha como daquilo que sua experiência visual-conceitual prévia o ensinou a ver”. Portanto, em períodos de revolução, quando muda a tradição científica vigente, a leitura de mundo do cientista sofre uma reeducação; ele enxerga novas formas nos objetos e situações com os quais estava familiarizado. Após uma revolução científica, não ocorre, pois, simplesmente uma mudança de paradigma: Kuhn confessa não conseguir evitar a constatação de que passamos também a viver em um mundo diferente.

Ainda resta uma pergunta: os cientistas serão sempre facilmente levados a adotar um novo paradigma, sem tentativas de resistência por parte de algum grupo dissidente? Decerto que não; nenhuma revolução se processa sem algum tipo de conflito. No caso das revoluções científicas, muitas vezes a transição parecerá um “conflito de gerações” entre os proponentes dos paradigmas antigo e novo. A resistência em adotar um novo paradigma não constitui, para Kuhn, uma violação dos padrões científicos, especialmente no caso dos cientistas mais velhos, pois é uma demonstração de fé no antigo paradigma, solucionador de diversos problemas de uma época. Além disso, muito da reputação de um cientista mais velho está ligada ao antigo paradigma – do qual, não raro, ele é um dos fundadores –, o que lhe dá boas razões para manter seu ponto de vista, ainda que de ordem exclusivamente pessoal. Porém, no caso de, diante do triunfo definitivo do novo paradigma, estes cientistas chegarem a ficar completamente deslocados da área da ciência onde atuavam, seu destino será, segundo Kuhn, o departamento de Filosofia. De qualquer forma, eles provavelmente logo morrerão.

2. Críticas ao modelo de Kuhn.

O impacto da obra de Kuhn sobre o universo científico, conforme já foi dito, foi enorme. Ao bater de frente com o realismo de Popper, Kuhn forneceu uma imagem de progresso científico que não se aproxima pouco a pouco de uma “verdade absoluta” difícil de formular, explicando por que a história da ciência às vezes dá sinais de rupturas radicais com o pensamento estabelecido, além de abrir espaço para uma abordagem não-preconceituosa sobre a atuação de fatores aparentemente alheios ao empreendimento científico que muitas vezes mostraram-se cruciais para um avanço. Kuhn, por essas razões, foi imediatamente acolhido como o representante da elaboração de uma imagem de ciência mais condizente com a realidade que a de Popper, a que os filósofos da ciência ansiosamente aguardavam. No entanto, tal impacto não foi isento de inconvenientes. Porque esses inconvenientes tornaram-se maiores do que as portas abertas por Kuhn, Laudan dirá que ele não falhou simplesmente na tarefa de formular uma teoria racional da mudança científica; falhou em formular uma teoria!

Inevitavelmente, a análise de Kuhn transformou a mudança científica num processo não-racional. Ao comparar a aceitação de um novo paradigma a uma conversão religiosa e ao afirmar não existir um determinado ponto onde seria uma atitude “irracional” permanecer no antigo paradigma ao invés de aceitar o novo, Kuhn não nos leva de forma alguma a conceber a mudança de paradigma como o resultado de uma comparação cuidadosa e deliberada entre as forças rivais.

Praticamente todos os filósofos da ciência consideraram as implicações da teoria de Kuhn muito perturbadoras, pois elas afrontam diretamente o que os filósofos vêm tentando estabelecer há 2000 anos, a saber, que as disputas científicas, assim como todas as discordâncias sobre questões de fato, são em princípio abertas ao esclarecimento e a soluções racionais. Quando Kuhn sustenta, por exemplo, que a teoria do flogístico de Priestley foi substituída pela teoria do oxigênio de Lavoisier não porque este último paradigma era objetivamente superior, e sim porque a maioria dos químicos daquela época acabaram se convencendo das idéias de Lavoisier sobre quais as seriam as prioridades da pesquisa científica, acaba dizendo que o debate interparadigmático é necessariamente inconclusivo e nunca pode ser trazido a uma conclusão racional. Sem dúvida, não são de todo injustas as críticas que acusam Kuhn de relativismo, subjetivismo e irracionalismo.

A partir de 1962, boa parte dos trabalhos de Kuhn concentrou-se em esclarecer algumas das ambigüidades e confusões criadas pela linguagem empregada em A estrutura das revoluções científicas. No entanto, qualquer tentativa de remediar a teoria de Kuhn através de emendas implicaria em sua destruição. Assumir que os valores cognitivos estão abertos à discussão racional ou desconsiderar a integralidade dos paradigmas, permitindo a cada componente seu mudanças individuais, que não alterariam de todo uma visão de mundo, provocaria uma mudança tão radical na teoria que ela simplesmente perderia toda sua caracterização: os pontos a serem mudados seriam justamente as bases sobre as quais a teoria de Kuhn está assentada.

Na verdade, os assim chamados paradigmas não são concebidos pelos cientistas, de modo geral, de maneira tão indissociável quanto Kuhn o faz. Tampouco deveriam ser assim concebidos. Se uma teoria não explica mais a realidade satisfatoriamente, se um método não promove mais os objetivos cognitivos almejados, se esses objetivos se mostram utópicos, o cientista terá boas razões para substituir estas peças por alguma mais adequada, sem necessidade de modificar o restante. A mudança no assim chamado paradigma não necessita ser em bloco, podendo sim ser escolhido algum elemento nuclear a ser modificado, mantendo-se os restantes, no sentido de atingir o melhoramento almejado. Se considerarmos, pois, que as mudanças de teorias podem ocorrer aos poucos, passo a passo, elas podem sim ser consideradas no todo um processo racional.

Laudan adverte que antes de aceitar apressadamente a realidade das mudanças de paradigma, devemos nos perguntar até que ponto elas adquirem essa plausibilidade por conta da nossa caracterização retrospectiva, que comprime uma série de mudanças graduais (conhecidas ou não) no tempo, fazendo com que a mudança pareça realmente um salto monumental. De fato, quando se estuda a história da ciência, começa-se a notar certas ligações entre os níveis ontológico, metodológico e axiológico; nota-se também que eles mudam com o passar do tempo e, olhando-se à distância, não é difícil conjecturar que suas mudanças estejam interconectadas e imaginar que são simultâneas, ou pelo menos muito próximas umas das outras. Somemos a isso a análise de alguns exemplos familiares – como a revolução científica do século XVII e o par teoria da relatividade / mecânica quântica, e teremos um quadro explicativo perfeitamente coerente em favor das revoluções científicas. Mas será que estas “revoluções” foram mesmo rupturas abruptas? Como não levar em consideração todos os antecedentes de mudanças, todas as pequenas descobertas de cientistas anônimos, todas as lentas transições ofuscadas pelo tempo que prepararam terreno para a consolidação das grandes mudanças? Uma sequência de mudanças de crenças, quando vividas ou examinadas em microescala temporal, parecem obedecer a um encadeamento de mudanças perfeitamente racional, que quando examinadas em macroescala comumente são drasticamente comprimidas, fazendo parecer que ocorreu uma mudança de visão de mundo absolutamente incomensurável com a anterior, e cuja adesão dos cientistas foi um processo repentino, muito semelhante a uma súbita iluminação religiosa. Claro, não está excluída a possibilidade de uma ruptura global, mas este é um evento extraordinário e não a regra. O que realmente ocorre aos caminhos da ciência são mudanças paulatinas que, observadas em blocos de longos períodos, perdem sua visibilidade em favor das mudanças mais notáveis.

Se observarmos a história da ciência, argumenta Laudan, veremos diversos exemplos de mudanças ontológicas, metodológicas e axiológicas nas teorias que não ocorreram em bloco. O autor relata a importante transição metodológica ocorrida durante o século XIX, de uma ciência que rejeitava a postulação de entidades inobserváveis nas teorias para outra que considerava os inobserváveis absolutamente plausíveis, transformando o método científico dominado por raciocínios indutivos para outro hipotético-dedutivo, sem que essa transição fosse abrupta ou implicasse em mudanças nos níveis ontológico ou axiológico. Também no nível axiológico pode ocorrer um processo semelhante, que Laudan nos exemplifica com o ideal de conhecimento infalível e incorrigível. A ciência que até o final do século XIX almejava as certezas dá lugar a um programa bem mais modesto, que procura produzir teorias plausíveis que aspirem ao status de conhecimento altamente provável; tal mudança axiológica deu-se na física, na química, na biologia, na geologia, cada uma à sua maneira e sem que se possa associar a ela uma teoria básica.

Quem compartilha da visão de Kuhn corre o sério risco de não perceber o fato não incomum de que visões de mundo rivais podem compartilhar os mesmos pressupostos ou, ao contrário, visões de mundo semelhantes podem ter pressupostos completamente diferentes. Enfim: uma teoria não está indissociavelmente ligada a um único paradigma e simples mudanças teóricas não determinam necessariamente uma revolução paradigmática – se é que isso existe. Podemos trazer como exemplo a discussão de Leff sobre mudanças de paradigma nas ciências ambientais, comparando a abordagem positivista tradicional com a abordagem sistêmica:

“o ecologismo aparece como um pensamento emancipador, capaz de ‘restaurar e inclusive transcender o estado libertador das ciências e filosofias tradicionais’ (Bookchin, 1971: 80). Porém, nem a ecologia generalizada nem a teoria geral dos sistemas resultam ‘revolucionárias’ em razão de seu enfoque integrador e de sua vontade de totalidade”.

O argumento de toda a obra citada de Leff é o de que a teoria geral dos sistemas tem sido apresentada como um remédio para todos os males de que a ciência tem padecido, possibilitando também uma reintegração entre as diferentes ciências. No entanto, para Leff, esta proposta na verdade não altera os problemas apregoados: unidade da ciência, uma teoria capaz de explicar quase todos os fenômenos e de aplicabilidade em quase todos os campos… Qual a diferença entre esse enfoque e a abordagem positivista tradicional? Para Leff, ambos são integradores, homogeneizantes e reducionistas, ou seja, simplesmente substituir o determinismo positivista pela teoria geral dos sistemas definitivamente não faz uma revolução metodológica. A complexidade atual de todos os campos do saber manifesta a impossibilidade da unidade da ciência, de qualquer forma de pensamento homogeneizante e reducionista, seja ele positivista ou sistêmico.

Enfim, o que estaria ocorrendo seria somente uma mudança no nível metodológico, permanecendo o restante do corpo das ciências relacionadas ao meio ambiente fundamentalmente inalterado, não se podendo falar em relação a elas de uma “mudança de paradigma”. Se o chamado antigo paradigma considera o livro da natureza como escrito em linguagem matemática, o chamado novo paradigma considera-o escrito em linguagem sistêmica. Continuamos, nesse intercâmbio de teorias, com a pretensão de encontrar a “teoria do tudo”, a explicação final, agora mais forte do que nunca.

A conclusão de Laudan é a de que podem ocorrer mudanças nos três níveis, até mesmo concomitantes, mas isso não é uma obrigatoriedade:

“a mudança científica é substancialmente mais fragmentada do que o modelo holístico sugere. Mudanças de valores nem sempre acompanham ou são acompanhadas por mudanças de paradigma científico. Mudanças de regras metodológicas podem mas não necessitam estar associadas a mudanças de valores ou teorias. Os três níveis, apesar de estarem inquestionavelmente inter-relacionados, não vêm na forma de um pacote na base do ‘é pegar ou largar’”.

3. Considerações finais.

O objetivo da obra de Kuhn, em síntese, é tecer uma crítica aos principais pilares do modelo de progresso científico de Popper, contestando a ideia de que esse progresso se dá gradualmente e cumulativamente, aproximando-se cada vez mais da verdade e sempre assentado sobre bases racionais. Nesse sentido, o modelo de progresso científico de Kuhn efetivamente nos fornece um quadro mais condizente com o que realmente observamos na história e na prática da ciência: que ocorrem importantes mudanças teóricas, metodológicas e axiológicas que se distanciam muito da visão de mundo adotada anteriormente; que o conhecimento construído não necessariamente é cumulativo, podendo ser total ou parcialmente suprimido por um conhecimento posterior; e que a adesão a uma nova teoria por parte da comunidade científica efetivamente está relacionada a elementos sociológicos e psicológicos dessa comunidade, pois o ser humano não trabalha o tempo todo sobre bases estritamente racionais. Contudo, há que se atentar para evitar cair no extremo oposto e dar todo crédito a Kuhn, afirmando que as mudanças científicas sempre se dão em bloco, numa total reformulação da visão de mundo antes prevalecente, tornando-a irreconhecível; ou que a mudança científica faz cair por terra todo o conhecimento estabelecido anteriormente, fazendo-o merecedor de escárnio pela nova geração científica; ou que todo o conteúdo da ciência está fundado em quadros sociológicos e psicológicos, carecendo assim de base racional.

A obra de Kuhn está entre as mais comentadas na história recente da Filosofia da Ciência, e um dos problemas mais apontados em sua obra é sua ambiguidade: se, por um lado, podemos sustentar que Kuhn queria apenas dizer que o progresso científico não é tão racional quanto o modelo de Popper faz crer, contendo elementos de irracionalidade, por outro lado parece às vezes que Kuhn não resiste à tentação de crer que esses elementos de irracionalidade são, volta e meia, mais relevantes do que os elementos racionais para explicar a adoção de um novo paradigma. Quando, por exemplo, ele compara a adoção do novo paradigma a uma experiência de conversão religiosa, deixa claro que esse processo se assenta muito mais sobre bases emocionais do que racionais. Claro, sempre se pode argumentar que Kuhn foi infeliz na escolha de alguns termos ou de que esta seria apenas uma interpretação muito radical. Mas o fato é que os termos estão ali e tiveram um impacto profundo sobre a percepção de progresso científico na ciência e na filosofia, abrindo caminho para, por exemplo, um Feyerabend. Seguramente esse Kuhn mais radical provou-se ser o favorito de uma série de movimentos e renovações científicas a partir do início da década de 1960, que não cessam de questionar a validade do conhecimento científico pois, em sendo determinado unicamente por descaminhos sociológicos e psicológicos, não conteria nada de racional. Conforme afirma Laudan:

“Feministas, apologistas religiosos (incluindo ‘cientistas do criacionismo’), contraculturalistas, neoconservadores e um grande número de outros excêntricos companheiros de viagem pretendem ter levado a água vital para os seus moinhos, por exemplo, na incomensurabilidade e na subdeterminação das teorias científicas. A substituição da ideia de que fatos e evidências importam pela ideia segundo a qual tudo se reduz a interesses individuais e perspectivas subjetivas é a mais notória e perniciosa manifestação de anti-intelectualismo em nosso tempo – perdendo apenas para as campanhas políticas americanas”.

Do fato de que nem toda mudança científica se assenta sobre bases estritamente racionais não se segue que as bases não-racionais sejam o principal motor do progresso científico. Pode mesmo ocorrer que o grande fato determinante de uma mudança científica tenha sido um evento sociológico ou psicológico, mas nenhuma teoria se sustenta no longo prazo se for absolutamente desprovida de fundamentos racionais, de adequação empírica, de coerência interna, de aplicabilidade prática ou de poder explicativo. É possível, sim, escrever certo por linhas tortas. É possível, sim, chegar a conclusões absolutamente válidas através de insights pouco racionais. Mas isso não significa que estes sejam seus principais determinantes, ou pior, que a ciência não contenha racionalidade e seja apenas mais uma manifestação do intelecto humano, tão válida quanto a religião ou o senso comum. Os frutos gerados por ela até hoje, se bem examinados, não nos autorizam à descrença em sua base racional.

4. Referências.

CHALMERS, Alan Francis. O que é ciência, afinal? São Paulo, Brasiliense, 1993[1982].

KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo, Perspectiva, 1995 [1962].

The road since Structure. Chicago, Chicago University Press, 2003.

LAUDAN, Larry. Science and values: the aims of science and their role in scientific debate. Berkeley, University of California, 1984.

LEFF, Enrique. Epistemologia ambiental. São Paulo, Cortez, 2002.

SOKAL, Alan David; BRICMONT, Jean. Imposturas intelectuais. Rio de Janeiro, BestBolso, 2014 [1997].

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