Tragédias anunciadas! De Brumadinho ao Rio.

Por:. Geraldo Lino

Após a trágica ruptura da barragem de rejeitos da Vale em Brumadinho (MG), que deixou um saldo de mais de 350 mortes, não tardou muito para que uma nova tragédia anunciada voltasse a ocorrer no País, com efeitos agravados pela mesma mentalidade de descaso com o Bem Comum e o bem-estar da cidadania potencialmente afetada pelas ações – e, principalmente, inações – dos tomadores de decisões.

Na noite da quarta-feira 6 de fevereiro, uma violenta tempestade com ventos que chegaram a mais de 100 km/h se abateu sobre o Rio de Janeiro (RJ), deixando um saldo de seis pessoas mortas, deslizamentos de encostas, cerca de 190 árvores derrubadas, 110 ruas interditadas e enormes prejuízos materiais em patrimônio público e privado.

No dia seguinte, o prefeito Marcelo Crivella atribuiu a catástrofe à precipitação elevada – segundo ele, “situação absolutamente inédita e extraordinária”, que só ocorreria a cada 120 anos –, aos “problemas históricos de ocupações de morros” e até às “mudanças climáticas” (O Globo, 08/02/2019 e Jovem Pan, 07/02/2019).

Ora, chuvas intensas no Rio de Janeiro, mesmo concentradas em determinadas áreas (em algumas, choveu mais que a metade do total esperado para o mês inteiro), não têm nada de inéditas ou extraordinárias – ao contrário, são rotineiras durante os verões.

“Não há nada de anormal no fenômeno. Nos nossos registros, ocorrem desde os anos 1920. Tivemos recordes de volumes de chuva maiores que o de ontem”, disse o meteorologista Thiago Souza, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) (O Globo (07/02/2019).

E a cidade do Rio de Janeiro conta com um moderno sistema de alerta que inclui um radar meteorológico com alcance de 250 quilômetros, capaz de detectar frentes de chuvas com antecipação de horas, tempo que deveria ser suficiente para que a população e as autoridades específicas se preparassem adequadamente. Apesar de o equipamento não indicar os locais precisos onde as chuvas mais fortes cairão, é possível antecipar a intensidade geral delas, para que as providências devidas sejam tomadas em tempo.

Alerta Rio, centro de monitoramento que opera o radar, tem três estágios para as chuvas:

1) Normalidade – sem previsão de chuvas ou chuvas fracas a moderadas, que exigem apenas monitoramento;

2) Atenção – previsão de chuvas moderadas a ocasionalmente fortes/muito fortes, capazes de provocar alagamentos e deslizamentos isolados e transtornos pontuais com reflexos na mobilidade, que exige comunicação entre os órgãos específicos;

3) Crise – previsão de chuvas fortes a muito fortes, capazes de causar múltiplos alagamentos e deslizamentos e transtornos generalizados, requerendo a atuação imediata das equipes emergenciais da Prefeitura.

Na quarta-feira, às 19h11min, usando os dados do radar, o RJ2, noticiário local da Rede Globo, informou sobre a iminência de chuvas fortes. Disse a jornalista Anne Lotterman:

Esta deve ser uma noite e uma madrugada bem difíceis para quem mora na Costa Verde e aqui na Região Metropolitana do Rio. O radar da Prefeitura mostra que a chuva já chegou na Costa Verde e está avançando um grande núcleo de chuva aqui para a região da cidade, para a Região Metropolitana. Já outros núcleos menores na cidade, isso deve aumentar nas próximas horas. E aí é o seguinte, como o solo já está bem encharcado, a atenção deve ser redobrada, essa chuva constante dá um alto risco de deslizamentos de terra na Costa Verde e aqui na Região Metropolitana do Rio. Essa chuva mais constante e forte se estende, não só para essa noite e a madrugada, mas também todo o dia de amanhã, só na sexta-feira é que dá uma acalmada (vídeo, 20:14-21:08).

Estranhamente, o estágio de Crise só foi acionado três horas depois, às 22h15min, quando chuvas fortes/muito fortes já castigavam a cidade há mais de duas horas e o caos se espalhava, com todas as calamidades previstas na própria definição do sistema de alerta. E, como em Brumadinho, em várias áreas de risco, as sirenes que deveriam anunciar o risco de deslizamentos também não funcionaram. Não houve qualquer explicação razoável para tais fatos.

Ao descaso com providências tópicas elementares que deveriam ser rotineiras nos verões do Rio, somam-se as consequências da mentalidade de desprezo pela prevenção de problemas, responsável por tragédias como a de Brumadinho, evidenciada no grande corte dos gastos da Prefeitura com a rubrica “controle de enchentes”, como mostra o quadro abaixo:

Mesmo considerando que os gastos do período entre 2014 e 2016, na gestão do prefeito Eduardo Paes, tenham sido em boa medida motivados pela realização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, a queda de investimentos na gestão de Crivella, que assumiu em 2017, não se justifica por qualquer critério aceitável, em face da importância das atividades de prevenção em uma cidade com as características do Rio.

Da mesma forma, dos R$ 264,9 milhões previstos no orçamento municipal para a proteção de encostas, em 2018, foram investidos apenas 13,3% ou R$ 35,4 milhões. Para este ano, o orçamento prevê apenas R$ 71,7 milhões.


Deslizamento de terra na Avenida Niemeyer, Zona Sul do Rio. No ônibus parcialmente soterrado, dois passageiros morreram (Márcia Foletto/O Globo).

No caso da Vale, as investigações vão demonstrando uma negligência semelhante com os alertas proporcionados pelo monitoramento da barragem, que detectaram irregularidades com mais de duas semanas de antecedência, as quais deveriam ter sido tratadas adequadamente pela cadeia decisória da empresa. Desafortunadamente, prevaleceu uma inércia que se revelou fatal para as numerosas vítimas da tragédia, provavelmente, motivada por uma cultura de governança corporativa viciada em cortes de custos considerados “supérfluos” (como os de prevenção e segurança) e na ocultação da necessidade de providências que possam “perturbar” a obtenção dos resultados financeiros de curtíssimo prazo esperados de cada setor das empresas.

Mariana, Brumadinho, Rio… Onde e quando ocorrerá a próxima tragédia anunciada?

Nota: Pois é, a resposta à pergunta final veio fulminante, com o incêndio no centro de treinamento do Flamengo. Como pode um dos clubes mais ricos do Brasil, que tem jogadores com salários superiores a R$ 1 milhão, manter jovens sob sua guarda em contêineres sem qualquer sistema de proteção anti-incêndios, verdadeiras arapucas? As imagens das ferragens retorcidas indicam que a temperatura das chamas foi altíssima, na casa das muitas centenas de graus; pobres jovens, não tiveram a menor chance de escapar. Como pai de três, inclusive uma adolescente de quase 18, confesso que chorei diante das imagens terríveis. Este país está muito difícil.

Nota do Prof Molion:

Relembrando que esses deslizamentos de terras sempre ocorreram em toda Serra do Mar, particularmente entre o litoral norte de São Paulo e Rio de Janeiro e que vão continuar ocorrendo.

Uma das maiores tragédias foi na Serra das Araras em 1967. No episódio, estima-se, morreram cerca de 1.800 pessoas, população brasileira era inferior a 70 milhões de habitantes. No mesmo ano, em março, ocorreu em Caraguatatuba, com 454 mortos. No Morro do Bumba, em  abril de 2010, 46 mortos.

Logo depois, gravei no Canal Livre na Band em que eu dizia que o fenômeno poderia se repetir já no ano seguinte, dadas as condições da circulação atmosférica global.

Cerca de 900 mortos na região serrana do Rio em 2011. Parati, 28 mortos na passagem do ano 2009/2010. E vai por aí a fora.

É atribuído  a Pe. José de Anchieta um relato sobre uma conversa com os Tupis-Guaranis sobre as “cicatrizes” da Serra do Mar no qual os índios diziam que “quando Tupã ficava irado, ele passava suas garras na montanha”. Ou seja, como todos os problemas no Brasil já estão há mais de 500 anos sem solução.

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